segunda-feira, 7 de junho de 2010

III - Sobre o princípio conformador do Belo

A mimese como fator inerente às Artes Visuais é uma questão que vem sendo discutida desde o início do estudo da História da Arte, tendo como marco o texto de Winclemann, nomeado "História da arte antiga" (1764). Nesse estudo, o estudioso alemão considerado fundador dos estudos históricos relacionados à arte classifica alguns períodos e busca explicações para seus surgimentos e desenvolvimento posterior, tendo como um dos focos o estudo do classicismo em relação aos outros períodos.
Esse movimento de retomada dos valores clássicos gregos ressurge posteriormente nos séculos XVIII e XIX com o Neoclassicismo, que vigora em um período de intensas transformações políticas e sociais, tendo como mais representativo exemplo a Revolução Francesa, onde a relação entre beleza e liberdade assume um significado político muito preciso. É um período onde conceitos como o do "bom selvagem", de Rousseau, precisam ser divulgados para a sociedade, através de figuras como Marat. Dentre os grandes pensadores do período pode-se citar Kant, Danton, Robespierre, assim como grandes artistas como Antonio Canova, David, Ingres, Joshua Reynolds, dentre outros, que buscavam imprimir em sua produção a beleza geral das formas, com priorização do corpo humano e a busca de um sentido dramático de composição mas que foge do rebuscamento excessivo dos períodos anteriores.
Porém, ao tratarmos de mimese e poéticas artísticas no Neoclássico, surge uma dualidade e embate de pensamentos a respeito dos motivos, finalidades e conseqüências da produção que foi estudado por Winclemann - teórico já citado - e Piranesi, pois afinal, qual a grande perfeição inerente à arte grega que a torna tão utópica e única a ponto de ser estabelecida como meta estética de muitos períodos históricos?
A questão entra no âmbito do histórico x metafísico, sendo que Winclemann vê a retomada (no caso o Classicismo, que se repetiria dentro de algumas décadas) como uma busca do objetivo da retomada do processo de obtenção da beleza (leia-se o conceito do belo grego, não o atual); já Piranesi possui uma visão mais focada na transição de períodos e no conceito de arte clássica como natureza, pois já está morta e, como tal, interessa ao artista, portanto não há nenhuma aura implícita no período grego, ele apenas é retomado por seu estado histórico de passado.
A discussão sobre o período ainda é desdobrada por Argan, que discute a sua nomenclatura escolhida: seria correto falarmos sobre Neoclassicismo ou Neoclássico? De acordo com Argan, ao falarmos de (Neo) classicismo, pressupomos uma imitação do clássico, que por sua vez não é imitação e sim a antítese do clássico, afinal nem sempre o paradigma grego é sinônimo de arte clássica.
Baseado nessa discussão e na análise de obras do período, nota-se uma originalidade nas retomadas dos valores gregos, principalmente no Neoclassicismo, que vem acompanhado de todo um embasamento filosófico de exaltação dos valores do cidadão e do homem, com um estreitamento dos laços entre arte, sociedade e política que se reflete na contemporaneidade, onde vivemos um período de estetização do cotidiano onde a arte se insere "perfurando" a micropolítica imposta a nós (vide estudos de Niguel Chaia e Sueli Rolnik).
Outras concepções que vigoraram por muito tempo, como o conceito de museu e a conversão da arte em disciplina ensinada nas academias, são conceitos pós-revolucionários e intimamente ligados ao período. Quando se lê Hegel citando a arte clássica como "equilíbrio entre conceito e realidade" - retomando o pensamento de Winclemann - associamos fortemente à inúmeros fatores da contemporaneidade. Talvez a busca pelo homem grego seja eterna, ou exista algo inerente ao homem como um todo que só os gregos acharam completamente. A valorização da cada indivíduo, sua areté e posição dentro da comunidade talvez seja algo que continuaremos a nos espelhar por muito tempo.

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